Correio do Estado

Terça-feira, 3 de novembro de 2026

Edição nº 23.193

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Segurança pública exige inteligência

O crime organizado não respeita limites estaduais, calendários eleitorais ou diferenças partidárias, por isso, seu enfrentamento não pode ficar limitado a iniciativas isoladas

As eleições passaram, mas os desafios continuam. E um dos mais importantes, tanto para o Brasil quanto para Mato Grosso do Sul, é encontrar soluções para os problemas de segurança pública antes que eles assumam proporções ainda maiores. Não podemos esperar que a criminalidade avance para, somente depois, tentar recuperar o terreno perdido.

Em Mato Grosso do Sul, os sinais de preocupação são evidentes. Nos últimos tempos, temos observado o agravamento das disputas entre facções criminosas, especialmente com o avanço do Comando Vermelho (CV) pelo norte do Estado. Historicamente, nosso território sempre foi uma das fortalezas do Primeiro Comando da Capital (PCC). A entrada de um grupo rival e a disputa por espaços não podem ser tratadas como um problema distante, tampouco como algo inevitável.

O enfrentamento policial é indispensável e vem sendo realizado pelas forças de segurança. Mas já não basta. É preciso investir muito mais em inteligência, antecipação e capacidade de identificar os movimentos dessas organizações antes que eles se transformem em confrontos, mortes e expansão territorial. A segurança pública não pode depender apenas da reação aos crimes depois que acontecem.

Por isso, também chegou a hora de superar os atritos políticos e institucionais que marcaram os últimos anos. Sobretudo quando parte dessas divergências foi alimentada por interesses de grupos e disputas eleitorais. As eleições terminaram. É necessário voltar as atenções para um problema que deveria estar acima de qualquer partido ou projeto político: proteger a população e impedir que a criminalidade organizada amplie seu poder.

Essa mudança de postura precisa vir acompanhada de investimentos. Em uma sociedade cada vez mais digitalizada, na qual até o dinheiro circula predominantemente por meios eletrônicos, não faz sentido manter estruturas policiais analógicas. As organizações criminosas já compreenderam essa transformação. Aplicam golpes em plataformas digitais, movimentam recursos por meios eletrônicos e utilizam redes sociais para recrutar integrantes e ampliar suas atividades.

As forças de segurança precisam acompanhar essa realidade. Isso significa capacitar policiais, modernizar equipamentos, adquirir bons softwares e desenvolver sistemas capazes de cruzar informações, identificar padrões e antecipar ações criminosas. Inteligência também se faz com tecnologia e profissionais preparados para utilizá-la.

O desafio não é apenas estadual. O Brasil precisa avançar na construção de um Sistema Único de Segurança Pública efetivamente integrado, com coordenação nacional, compartilhamento de informações e cooperação entre as diferentes forças policiais. A proposta de organização e integração prevista na PEC da Segurança Pública aponta para uma discussão necessária, que não pode ficar refém de disputas políticas.

O crime organizado não respeita fronteiras estaduais, calendários eleitorais ou diferenças partidárias, por isso, seu enfrentamento também não pode ficar limitado a iniciativas isoladas. Precisamos de planejamento, inteligência, tecnologia e integração.

“Servir o povo de nossa terra, informando-o, indagando dos seus problemas, empenhando-se na sua solução, batendo-se por seus direitos e verdadeiros interesses”

As 600 oliveiras de Nabatiyé e as eleições brasileiras

Seiscentas oliveiras chegaram à Justiça francesa na forma de queixa judicial. Árvores libanesas, plantadas ao norte do Litani. Segundo o proprietário, algumas tinham aproximadamente 500 anos, acompanhando gerações, mudanças de governo e sucessivas estações. A família as cultivava havia 250 anos. Dois séculos e meio. De oito a dez gerações. Tataravós e seus antepassados colheram, podaram, acompanharam. Contudo, entre 29 de junho e 20 de julho, imagens de satélite denunciam que elas foram arrancadas dos seus berços seculares, inclusive com as raízes. Crime de guerra. Mais um.

O Pnat, Ministério Público Nacional Antiterrorista francês, em Paris, recebeu a denúncia. A instituição, que começou a funcionar em 2019, tem competência também para crimes de guerra e crimes contra a humanidade. É um órgão da Justiça francesa, encarregado da investigação e da acusação perante os tribunais competentes.

O denunciante, franco-libanês, pediu anonimato e atribuiu ao Exército israelense o arrancamento das oliveiras familiares no distrito de Nabatiyé. A AFP informa ter consultado a queixa. A suspeita de que as árvores tenham sido levadas para Israel ainda não está comprovada, mas as 600 árvores não estão em solo libanês. Onde estariam?

Como se descreve a perda de uma árvore que já estava de pé quando os avós dos nossos avós ainda não tinham nome?

Uma contabilidade pode avaliar a produção, a madeira, o custo de reposição. A memória familiar precisa de outras medidas. Precisa contar quem plantou, quem podou, quem esperou a primeira colheita. Precisa reconhecer o trabalho que um homem deixou para outro continuar. Uma árvore antiga oferece à família algo que poucos bens conse guem oferecer: a presença material de quem já morreu.

No Líbano, a oliveira participa da vida real. Dá azeitonas e azeite; seu óleo entra na fabricação tradicional de sabão. O aproveitamento alcança o que permanece depois da prensagem: o bagaço, chamado jift, pode ser seco e utilizado como combustível para o aquecimento doméstico. As famílias armazenam esse material para enfrentar o inverno, que é rigoroso.

A mesma colheita pode, portanto, alimentar a casa e ajudar a aquecê-la. Quando o olival desaparece, essa cadeia cotidiana se rompe. O prejuízo entra pela cozinha, pelo trabalho, pela preparação do inverno. E permanece no lugar vazio onde a família reconhecia sua história.

Além da Bíblia, o Talmud judaico e o Alcorão valorizam sobremaneira a oliveira. Portanto, a árvore extrapola o símbolo religioso, posto que pertence às três correntes mais significativas da região, constituindo um patrimônio civilizacional.

Arranadas. As 600. No Brasil, que abriga a maior diáspora libanesa do mundo, com ditos mais de oito milhões de libaneses e descendentes, essa situação merece

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Texto extraído do PDF da edição impressa nº 23.193 do Correio do Estado. Acervo de edições

Segurança pública exige inteligência · As 600 oliveiras de Nabatiyé e as eleições brasileiras — Terça-feira, 3 de novembro de 2026, página 2 — Correio do Estado