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Correio do Estado, Sábado, 24 de outubro de 2026 — página 12
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+poesia Henrique de Medeiros e o absurdo na poesia · O cine Trianon Quase perdemos o Alemão
Suplemento Cultural Sob a responsabilidade da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras Coordenação: Henrique Alberto de Medeiros Filho | Contato: (67) 3382-1395, das 13h às 17h | www. acletrasms.com.br 5 sábado/domingo, 24/25 de outubro de 2026 +poesia Henrique de Medeiros e o absurdo na poesia O cine Trianon Quase perdemos o Alemão Enilda Mougenot Pires – Cadeira nº 5 da ASL O livro “Nadas em Busca dos Todos: Poemas Reunidos” do poeta e escritor Henrique Alberto de Medeiros Filho, publicado em 2024, pela Letra Livre Editora, 351 páginas, apresenta as seguintes seções: Nadas, Sob Meus Pés, Caixas do Idealizar, Dedos Mágicos Desenham, Plagas Ínfimas, Energias Desorientadas, Nadas em Busca, Carnes e Ossos Perdidos e Planos Insanos.
No Prefácio, manuscrito de Manoel de Barros de 7 de março de 1996, uma frase reverbera ao afirmar: “Você está provando que é poeta.” A Apresentação em nome do próprio poeta entrelaça movimentos poéticos de uma “felicitosa mente, misteriosa mente, desde o início grassa passos largos para lugar nenhum.” Para conhecer Henrique Medeiros deve-se atentar ao fato de que sua literatura “sofre transformações, muda a toda hora, desvenda, advinha, inventa, associa, tem até ideias.” Aqui, reúnem-se verdadeiras peças de um mosaico literário. Com sua poesia humanista, o leitor continuará no “corte de navalha” – metáfora que associa os problemas da vida com a complexidade da condição humana. Em seus poemas, está bem explicitada a sua raiz ou o teor de suas ideias: “Segredos de extensões bem guardadas em enigmas indecifráveis [...
]. Detalhes que fazem toda a diferença na continuidade do ir.” Quando se lê essas páginas, o leitor se depara com um fato curioso e polêmico. Escrever é “info transformado em textos na balbúrdia das letras.” Por que? Porque a mente “é reinvenção ou escaneamento dos degraus das dimensões.” Ao final, o poeta deixa seu recado: “Qual é mesmo o gosto do sangue? E do despertar da A desnecessária poesia Poesia não serve pra nada sabe o poeta, diz o poeta. Não compra pão, não paga aluguel, está submetida ao mundo dos inutilitários, prescrita a amantes do passado, a desiludidos do presente, a loucos, a desenganados. Nem mais a adolescentes serve, mas solfeja ritmos impensáveis. Poesia pode dar uma porrada no estômago, luz na mente.
E ser, sem querer, um chocolate na alma. Ela vive na alcova das palavras desnecessárias. AMÉRICO CALHEIROS Encanto Por todo canto Eu canto A minha voz Veloz campeia Nos caminhos do amor Dos espinhos descarinhos Renasci para encontrar Você! A poesia nasceu em mim Como nasce a flor A poesia que existe em mim Nasceu para acalmar a dor A poesia vida que nasce em mim Vive para irrigar esse jardim Que é você GUIMARÃES ROCHA “A mente é reinvenção ou escaneamento dos degraus das dimensões”. divulgação Capa do livro de Henrique de Medeiros Renato Toniasso – Cadeira nº 23 da ASL N a segunda metade da década de 1950, os meus pais iniciavam a vida familiar em uma propriedade rural arrendada pelo meu pai e por dois dos seus irmãos no interior do Rio Grande do Sul.
Como pioneiros em algumas áreas de agricultura mecanizada na região, eles haviam adquirido, dentre outras máquinas agrícolas, um trator fabricado na Alemanha. Esse trator não tinha partida através de baterias, nos moldes atuais. Para funcionar, precisava ser submetido à força humana através do giro de uma manivela, ou, o que era bem mais prático, ao que se chama “um tranco”, e que significa deixar o veículo rodar por alguns metros em um plano inclinado do terreno, até pegar certa velocidade, quando, com uma marcha engrenada, solta-se a embreagem. O soco causado pela necessidade de giro a que os pneus tracionados são submetidos faz com que a força produzida pela inércia acione o motor, colocando-o em funcionamento: é o “tranco”.
Pois para submeter o trator ao “tranco”, o meu pai costumava deixá-lo estacionado na parte mais alta de uma elevação, próximo à sede da fazenda. E, quando ia trabalhar, eu, então com dois anos e meio de idade, seguia-o com os olhos, com muita vontade de acompanhá-lo. Como sou o filho mais velho do casal e um dos primeiros sobrinhos dos meus tios, e como a minha mãe era de origem alemã e eu tinha pele bastante clara, todos me chamavam carinhosamente de “alemão” - o meu lado paterno era de origem italiana. Um dos meus tios era o meu padrinho e, ao que me consta, eu era o que hoje se rotula de “o xodó”, senão, daquele agrupamento familiar, pelo menos dos meus pais. Eu era muito apegado com o meu pai.
Pois em um dia chuvoso e de inverno, o meu pai informou que iria pegar o trator para fazer alguma coisa, e logo saiu na direção do seu instrumento de trabalho. Sem que ninguém se apercebesse, eu saí atrás dele, na intenção de acompanhá-lo na “aventura”. Ele subiu pela parte traseira do trator e logo iniciou os preparativos para “dar o tranco” na máquina. Enquanto isso eu subia às suas costas, quando o trator já iniciava o movimento. Quando ele “deu o tranco”, com a inércia, eu passei pela lateral dele e caí bem na frente do pneu traseiro - e maior - do trator. Na queda, ele me viu e tentou me segurar pelas calças, mas não conseguiu; “sentou” os pés na embreagem e no freio do trator, e, com isso, como o chão estava embarrado, as rodas traseiras do equipamento foram deslizando no barro, até que a máquina parou; a minha cabeça ficara embaixo do pneu, sob uma garradeira, e só não fora esmagada porque também deslizara, empurrada pela roda do trator.
Fui retirado daquela posição e levado para um hospital, onde devo ter recebido o tratamento adequado. Fiquei com um afundamento no osso da parte de trás da cabeça até por volta dos 14 anos de idade, quando essa deformação desapareceu. O trauma, porém, foi grande. Até muitos anos depois, os meus pais relembravam o episódio e comentavam, como que a relatar o susto pelo qual passaram: “quase perdemos o alemão”. Inobstante o conteúdo particular deste relato, resolvi incluí-lo neste livro no intuito de que sirva de alerta para pais que tenham filhos mais ou menos na idade em que eu me encontrava quando dos fatos, pois o risco de atropelamento e mesmo de morte, por exemplo, quando se vai retirar o carro da garagem, não é desprezível; tanto que o próprio Direito, em situações da espécie, autoriza o juiz a conceder o perdão judicial, por entender que a dor causada pelo fato em si, já é suficiente para a expiação da culpa.
descoberta?” Pode-se atestar com segurança: seus poemas vêm ensinar que somos a eterna busca por um refúgio como lembra O estrangeiro de Baudelaire – “Eu amo as nuvens... as nuvens que passam lá longe...as maravilhosas nuvens!” Nesse degrau de dimensões, surge a figura do visionário no poema Manhã de sol. Tem-se dois cenários. No primeiro, o eu lírico dialoga com a natureza e a alma humana. Já o segundo valoriza o absurdo, a esperança, a questão da morte como uma situação-limite. O sinal da contradição, das ideias de uma identidade fragmentada que não pode existir ou ser verdadeira no mesmo instante como se vivesse de modo sofrido e desumano ao “olhar toda essa gente que se move feito formigas/seguindo para um nada perdido/nesse hiato entre o nascer e o morrer [...
]” a antítese se espalha, distribuindose em várias direções do poema. A sensação do absurdo afeta sua alma. Essa consciência do absurdo – perspectiva do filósofo Albert Camus – ganha fôlego sobretudo no verso “[...] é motivo de um vazio imponderável na agrura da alma[...].” Interliga-se em uma reflexão original que olha para a realidade e exige ordem diante da razão embora o mundo sempre resista à compreensão. É nesse confronto que duas linhas mestras são encaradas frente a frente – a racionalização e o absurdo em sua poesia. Ao final, surge novamente a linda imagem de uma manhã de sol, “com pássaros árvores céu luz infinito/ algazarra de humanos/ toda essa indiscutível e belíssima paisagem.
Age como o Sísifo, personagem da mitologia grega, e subirá a pedra a morro acima e recomeçará a tarefa, sabendo infindo o processo da conclusão. Não há dissolução nesse conjunto de problemas chamado “vazio imponderável” e assim Medeiros entrega um todo coerente, no qual novas dimensões surgem e sua poética fica em aberto. E vai crescendo com o leitor. E isso é, indiscutivelmente, o que movimenta cada verso abordado pelo autor, incluindo não só este poema como muitos outros trabalhados em sua lírica. É um convite a olhar poemas reunidos e acomodados em fraturas de amor, lamentos, saudade inacabada, buscas e resgates aqui e em toda parte tão em falta na vasta linha da vida. Paulo Coelho Machado – ocupou a Cadeira n° 21 da ASL O nde é hoje o edifício Galeria São José, havia um prédio de muito bom aspecto, construído especialmente para que nele funcionasse o cinema Trianon.
O proprietário, Juvenal Alves Correia Filho, divisionista de quatro costados, era um homem robusto, afável, sempre bem penteado, que gostava de ler, muito cortês com os frequentadores da sua casa de espetáculos. Os melhores filmes da cena muda foram exibidos com a música dos festejados maestros José Passarelli e Emílio de Campos Vidal, tocada nos intervalos, que eram muitos, pois cada filme tinha de oito a doze partes e na troca do rolo gastava-se mais de dez minutos, fora as interrupções extraordinárias, em que o público era brindado com a agradável orquestra, além do fundo musical, inserido sempre que a natureza do filme ou da fita, como era também chamado, o exigisse. Os famosos faroestes de Tom Mix e Buck Jones, como as comédias de Haroldo Loyd, Carlito, Buster Keaton e Jimmy Durante, faziam a alegria da garotada nas matinês dominicais.
No correr dos folguedos carnavalescos o cinema transformava-se em grande salão de festas, quando dos camarotes eram atirados os confetes dourados, os bilhetinhos enrolados em balas e bombons, que os namorados recebiam com a maior emoção. Inaugurados os cinemas Alhambra e Santa Helena, mais confortáveis e modernos, o velho Trianon não resistiu. Fechou as portas para reabri-las como Rádio Difusora de Campo Grande, a famosa PRI-7, pioneira de nossas emissoras e orgulho dos habitantes da cidade. Era um fator progresso. Pertenceu a diversos donos, teve boas e más fases. Uma das melhores foi, sem dúvida, quando teve como dono e diretor artístico o médico oftalmologista (ou oculista, como se dizia naquele tempo), o dr.
Peri Alves Campos, um cuiabano inteligente e cheio de ideias. Imprimiu à estação um ritmo de trabalho intenso, modernizador. Por intermédio de seus locutores, Peri cognominou Campo Grande de Cidade das Primaveras, que não teve forças para vencer o Cidade Morena (de autoria de Ulisses Serra), de maior significação naqueles tempos empoeirados, pois as buganvílias não eram tantas e logo desapareceram. ilustração feita por IA/ASL
Texto extraído do PDF da edição impressa nº 23.185 do Correio do Estado. Acervo de edições