Correio do Estado

Terça-feira, 27 de outubro de 202627/10/2026

Edição nº 23.187

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Quatro anos depois: o que fizemos com o sonho de Darcy

ensaio Quatro anos depois: o que fizemos com o sonho de Darcy pedro machado mastrobuono* A criação do Distrito Acadêmico e Científico LatinoAmericano. O Centro de Ensino Superior Darcy Ribeiro nasce dentro dessa mesma perspectiva. Não se trata de colocar o nome de Darcy em mais uma placa. Trata-se de permitir que uma instituição imaginada por ele continue fazendo aquilo que justificou sua criação. Essa presença institucional crescente produz uma consequência importante para a própria compreensão patrimonial do Memorial. O complexo deixa ainda mais claramente de poder ser percebido apenas como uma obra arquitetônica extraordinária ou como local destinado à realização de eventos. Sua arquitetura é excepcional.

Mas seu valor não termina na arquitetura. Hoje convivem nesse território museu, biblioteca, Cátedra Unesco, Cátedra de Línguas Originárias, centro de estudos, programas de bolsas, universidades, pesquisadores internacionais, redes acadêmicas, produção científica, cooperação diplomática, cultura popular, arte, formação e vida pública. A respeitabilidade que o Memorial vem recuperando nasce justamente dessa combinação. Oscar Niemeyer lhe deu uma forma arquitetônica excepcional. Mas é a continuidade da ideia de Darcy Ribeiro que transforma essa arquitetura em instituição. É também nesse contexto que deve ser compreendido o movimento de proteção patrimonial internacional iniciado com o Icomos. A Fundação solicitou ao Icomos Brasil avaliação técnica preventiva dos riscos que transformações profundas no modelo de gestão, nos usos e na exploração econômica do complexo poderiam produzir sobre sua integridade arquitetônica, cultural, museológica, documental, acadêmica e funcional.

O Icomos Brasil acolheu essa preocupação e a transformou também numa manifestação institucional própria. Encaminhou ofício formal ao governador do estado de São Paulo ressaltando que a proteção do Memorial não pode ser reduzida à conservação física de seus edifícios e que forma, função, uso, intenção projetual e valores históricos, sociais e intelectuais precisam ser considerados conjuntamente. A manifestação nacional (Segunda parte) fotos: reprodução Darcy Ribeiro e Paulo Freire abriu igualmente a perspectiva de apresentação do caso às instâncias internacionais do Icomos e ao International Scientific Committee on Twentieth Century Heritage (ISC20C), com possibilidade de avaliação no âmbito dos mecanismos internacionais de Heritage Alert.

Esse movimento possui para nós um significado muito preciso. Não buscamos internacionalizar uma disputa política. Buscamos um olhar técnico externo capaz de perguntar preventivamente o que precisa ser protegido antes que qualquer transformação potencialmente irreversível aconteça. Preservação não começa depois da perda. Começa antes. É nesse mesmo percurso que deve ser compreendido o pedido agora formalizado ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Ele tampouco nasce apenas das circunstâncias administrativas do presente. Sua origem histórica é muito anterior. Em 2007, o próprio Oscar Niemeyer incluiu o Memorial da América Latina entre as obras que gostaria de ver protegidas pela União.

O Iphan examinou o conjunto, reconheceu sua relevância e o identificou entre obras exemplares ou paradigmáticas de sua trajetória. O tombamento federal não ocorreu em 2016 principalmente em razão das condições materiais daquele momento, especialmente após o incêndio que havia atingido o Auditório Simón Bolívar. Essa circunstância mudou. O auditório foi recuperado. O conjunto permanece vivo. E, mais do que isso, acumulou novas camadas de significado. Por isso, não estamos pedindo ao Iphan que invente um valor patrimonial que o Memorial nunca possuiu. Estamos pedindo que volte a olhar para um patrimônio cujo valor já havia sido reconhecido e cuja realidade material, museológica, documental, acadêmica, científica e institucional hoje é profundamente diferente.

Há, para mim, uma coerência muito clara entre todos esses movimentos. Conhecer e catalogar o acervo do Pavilhão. Restabelecer a parceria com a CAF e transformar recursos de cooperação internacional em documentação e preservação. Produzir aquilo que, com afeto, passamos a chamar de nosso “raisonné do Memorial”. Proteger a Biblioteca Latino-Americana. Buscar reconhecimento internacional para seu patrimônio documental. Fortalecer o Centro Brasileiro de Estudos da América Latina (Cbeal). Ampliar bolsas e pesquisa. Manter e aprofundar a Cátedra Unesco. Criar a Cátedra de Línguas Originárias. Reaproximar USP, Unesp, Unicamp e Fapesp. Trazer Prolam, PUC-SP, Clacso, UNU-CRIS, Escola Nacional Florestan Fernandes e outras instituições para dentro do mesmo território.

Construir pontes com Baylat, Udualc e outras redes internacionais. Criar o Distrito Acadêmico e Científico LatinoAmericano. Construir o Centro de Ensino Superior Darcy Ribeiro. Solicitar ao Icomos Brasil e ao Icomos Internacional uma avaliação preventiva. E agora requerer ao Iphan o tombamento federal do conjunto. Nada disso constitui uma sucessão de projetos desconectados. Tudo responde à mesma pergunta: o que devemos fazer para que o Memorial da América Latina possa chegar às próximas gerações sem perder aquilo que lhe deu sentido? Há, entretanto, uma dimensão pessoal que torna essa responsabilidade ainda maior para mim. Conheci Darcy Ribeiro quando eu ainda era muito jovem. Meu pai e Darcy haviam sido ministros no governo do presidente João Goulart, e foi naquele período que nasceu entre eles uma amizade que atravessaria depois o golpe de 1964 e o exílio.

Ambos estiveram no Peru, e Darcy frequentava nossa casa em Lima, cidade onde passei parte importante de minha infância. Eu era jovem demais para compreender inteiramente aquelas conversas. Mas certas palavras permanecem dentro de nós antes mesmo que sejamos capazes de explicar seu significado. Uma delas era a ideia da América Latina como força civilizatória. Ouvi essa expressão muito cedo na voz do próprio Darcy. Talvez eu só tenha compreendido muito mais tarde o quanto ela me acompanhou. Hoje reconheço que aquelas conversas, aquela convivência e aquela maneira de pensar o continente provavelmente influenciaram também minhas próprias escolhas, inclusive meu interesse posterior pela antropologia e pela compreensão das instituições como lugares onde cultura, memória e conhecimento podem transformar-se em ação.

Por isso, chegar ao fim desta gestão possui para mim um significado que ultrapassa qualquer balanço administrativo. Espero ter honrado, na medida de nossas possibilidades, a memória e o pensamento de Darcy Ribeiro. E, junto dele, de uma geração representada também por Florestan Fernandes, Paulo Freire e tantos outros intelectuais brasileiros que conheceram perseguição, afastamento, cassação ou exílio, mas não deixaram de imaginar um país menos desigual e uma América Latina capaz de reconhecer sua própria força. Eles não sonhavam apenas com instituições melhores. Sonhavam com sociedades capazes de produzir dignidade, educação, cultura e conhecimento. Sonhavam também com uma América Latina integrada, consciente de si, capaz de falar ao mundo não como periferia resignada, mas como força civilizatória.

Talvez seja essa a prestação de contas que mais me importa fazer ao terminar estes quase quatro anos. Não perguntar apenas quantos projetos realizamos, quantos edifícios recuperamos, quantas bolsas criamos ou quantas instituições trouxemos para dentro do Memorial. Mas perguntar se conseguimos manter vivo o sonho que justificou sua existência. Se o Memorial voltou a estudar a América Latina. Se voltou a produzir conhecimento sobre ela. Se voltou a reunir universidades. Se voltou a preservar aquilo que recebeu. Se voltou a permitir que brasileiros se reconheçam também como latino-americanos. E se conseguimos entregar à próxima gestão uma instituição um pouco mais consciente de por que existe. Preservar não significa congelar.

Instituições vivas precisam transformar-se. Mas toda transformação exige consciência daquilo que não pode ser perdido. No caso do Memorial, precisamos proteger simultaneamente a arquitetura de Niemeyer e a ideia de Darcy. Uma sem a outra seria uma preservação incompleta. Agora que esta gestão se aproxima de seu encerramento, depois de quase quatro anos de trabalho, acredito que muitas das desconfianças naturais do início de uma nova administração já possam ser substituídas pela possibilidade de julgar nossa passagem pelo que efetivamente conseguimos construir. Este texto é apenas um pequeno resumo desse percurso. Apresento-o, em nome da gestão, à apreciação dos servidores e colaboradores da Fundação Memorial da América Latina, com a convicção de que nada do que foi realizado teria sido possível sem o trabalho cotidiano, a dedicação, a crítica, a confiança e a presença de cada um.

A todos aqueles que caminharam conosco até aqui, deixo meu reconhecimento e minha gratidão. Se alguma coisa permanecer desta gestão, espero que seja sobretudo a certeza de que preservar uma instituição não é apenas mantê-la de pé. É ajudá-la a lembrar por que existe. Talvez preservar o Memorial tenha sido, durante estes quatro anos, justamente isso: ajudá-lo a lembrar por que existe e devolver-lhe coragem para continuar o sonho de quem o imaginou. Oscar Niemeyer construiu um lugar extraordinário. Darcy Ribeiro imaginou o que poderia acontecer dentro dele. Nossa responsabilidade não era escolher entre um e outro. Era preservar ambos. A forma. E o sentido. Pedro Mastrobuono, caro amigo, depois de acompanhar de perto momentos tão intensos dessa trajetória, compreendi que sua ligação com o Memorial ultrapassa os laços históricos e afetivos que o aproximam de Darcy Ribeiro e Oscar Niemeyer.

Ela se revela, sobretudo, no trabalho cotidiano, na inteligência de aproximar instituições, na defesa das culturas latino-americanas e na convicção de que a integração dos nossos povos começa pelo reconhecimento de suas identidades, memórias e saberes. É por isso que o vejo como a alma do Memorial: não por confundir-se com a instituição, mas por ter compreendido profundamente o que lhe dá sentido. Niemeyer concebeu a forma; Darcy imaginou o destino. E você tem dedicado sua inteligência e sua energia a fazer com que esse encontro permaneça vivo, transformando memória em ação e legado em futuro. Talvez a maior realização de sua gestão seja esta: devolver ao Memorial a consciência de sua vocação e a coragem de continuar sendo aquilo que nasceu para ser.

Porque preservar uma instituição não é apenas proteger o que ela tem, mas cuidar daquilo que ela representa. E o sonho de Darcy, em suas mãos, não se tornou apenas lembrança: continuou sendo projeto, movimento e possibilidade. (Ana Maria Bernardelli) * Pedro Machado Mastrobuono é presidente da Fundação Memorial da América Latina, pós-doutor em Antropologia Social. Agraciado com a Comenda Câmara Cascudo do Senado por sua trajetória na proteção ao patrimônio cultural nacional. Ex-presidente do Instituto Brasileiro de Museus (Ibram), além de sócio-fundador e ex-presidente do Instituto Alfredo Volpi de Arte Moderna. É doutor honoris causa pela UFMS. Idealizador do Distrito Acadêmico e Científico Latino-Americano, com a cooperação de USP, Unicamp e Unesp, bem como do Centro de Ensino Superior Darcy Ribeiro, do qual é sócio-fundador e primeiro reitor.

É o homenageado do ano pela Associação Brasileira de Críticos de Arte (ABCA), em reconhecimento à sua relevante contribuição à cultura brasileira.

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Texto extraído do PDF da edição impressa nº 23.187 do Correio do Estado. Acervo de edições

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