Correio do Estado

Sábado, 31 de outubro de 2026

Edição nº 23.191

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Correio do Estado, Sábado, 31 de outubro de 2026 — página 12

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+POESIA A casa e a árvore

lado, no jardim ou no quintal. Era na casa. Arreganhavam-se pelas paredes belos e disformes caules de uma planta anônima, um vegetal ousado crescendo em lugar intrincado, disputando espaços com os tijolos que encobriam a porta, alimentando-se da surrada alvenaria e bebendo das eventuais chuvas. Uma árvore de cores fortes, um verde apressado e desconfiado da má localização, porém honesto verde. Os galhos se uniam às paredes como se agarrando a algo desesperado em dar vida aos escombros; não podiam cair para a rua porque alguém seria capaz de arrancá-los; não podiam espalhar-se e permaneciam lá grudados como essas trepadeiras comuns que vemos nas pequenas casas onde ainda existem jardins. A árvore do tudo; elas persistem em seus galhos, porque era apenas um pequeno teste da sua rigidez. Todas as folhas continuam a se agitar; mas, para elas, isto é apenas um beijo; ah! se as pessoas encarassem as pequenas dificuldades assim! Não haveria tanto sofrimento no mundo.

Agora, meus pensamentos estão presos aos meus passos e eles não querem parar; para trás ficaram os rastos que, com certeza, logo serão apagados, porque neste mesmo espaço outras pessoas irão passar e não somos donos de nada, a não ser de nós mesmos.

O barulho de meus passos me desperta e vejo que estou quase na metade e a beleza do amor nunca me deixou solitária.

Também não é possível andar tanto sem descansar. Acolho-me ao tronco de uma árvore seca, mas que ainda se serve ao mundo, então deixo de lado estes pensamentos para pensar porque não é possível chegar até lá. Ah! Meus pensamentos!... pensamentos!... A mente quando se cansa busca outras coisas a pensar.

E minha infância, minha adolescência e mocidade, a rigor, 95% pelo menos, das músicas que eu ouvia, eram polcas. O mesmo aconteceu, no meu tempo, com todos os habitantes da fronteira Brasil-Paraguai. Posso atestar que as polcas paraguaias penetravam muitos quilômetros adentro da fronteira, atingindo municípios que nem fazem limite com o Paraguai. Em Maracaju, Aquidauana, Dourados, Miranda, por exemplo, pelo menos até alguns anos atrás, os bailes nas fazendas eram à base de música paraguaia.

Hoje, se eu tivesse que descrever a música paraguaia, diria que ela representa a alma de um povo sofrido, mas heroico e amante das belas coisas da vida, de um povo generoso que representa um país fascinante, em sua natureza e até seu primitivismo, de morros e planícies inesquecíveis, onde o ar que se respira como que tremula no espaço pleno de musicalidade. De um povo que canta, que ri, que chora, se alegra ou se entristece e cujos sentimentos tomam corpo e voam por sobre montanhas, atravessando florestas, ganhando beleza, novas emoções e se perdendo além dos horizontes, tocando fundo no coração das Américas. De um povo macanudo que na fronteira sul-mato-grossense soube conquistar a amizade dos brasileiros, mantendo-os prisioneiros aos seus abraços, às suas harpas, aos seus violões e à graça típica de suas mulheres, morenas e bonitas, envolventes, sentimentais e, por vezes, meio misteriosas.

De um povo, enfim, que tem na música o seu mais fiel e autêntico retrato.

na parede desafiava a lógica, não se parecia com samambaia nem cipó. Agarrava-se à vida numa casa extenuada; uma harmonia dos contrários.

Fiquei ensimesmado com essa manifestação da procura por preservação. A árvore nasceu ali, ali ficou e se virou como pode, mesmo em frente a uma rua movimentada e ar insalubre dos carros expelindo o gás carbônico que destrói não só os pulmões das pessoas, como as próprias árvores que já não conseguem exercer seu papel de oxigenação do ar.

Estava ali a constatação de um passado remodelado pela teimosa natureza. Na casa antiga, alguma coisa insistia na vida, vida vegetal, mas vida. Pensei cá comigo: se a intervenção humana não acabar com a árvore, ela se tornará tão antiga como sua hospedeira, a carcomida parede. Tornar-se-ão ambas velhas e respeitáveis.

Ledo engano. Retornei algumas semanas depois. Tudo modificado. Interviram na idade da velha casa retirando a árvore e cobrindo o espaço com cimento. Modernidade em alta e poesia em baixa.

Poema sem título IV

dia normal deixo datas de lado nado e me afogo o fôlego me falta e volto nada como hoje

Cidade símbolo, cujo ar, vetusto sugere a imagem de um varão augusto que ganhou na luta o laurel final.

Testemunho vivo da nossa História! Relicário eterno de tantas glórias! Dos sertanistas ontem o bom fanal.

Colmeia humana onde o seu passado sempre foi calor de um valor seguro na fusão lenta de um presente amado a forjar as marcas do seu futuro.

ALDO DE QUEIROZ Deus Menino

Quando na Manjedoura o Deus menino, Entre calor e frio, feliz sorria, Sob o materno olhar da fiel Maria, Poucos criam, de fato, em seu destino... Pois era um rei tão pobre e pequenino, De mãe adolescente em fuga e andanças... E um adotivo pai sem mais bonanças. No entanto, era Jesus, o Salvador, Que ao bem morrer por nós disse co’amor: O Céu pertence aos puros e às crianças.

E quando olhamos, hoje, a manjedoura, Pra festejar mais um seu nascimento, Lembramos de Jesus e o sofrimento Que deu por nossa vida duradoura... Porém, nossa resposta pecadora Não é a mais pura das alianças... E mesmo assim Jesus nos dá esperanças De renovar com Ele, o Bom Pastor, Que ao bem morrer por nós disse co’amor: O Céu pertence aos puros e às crianças.

JOSÉ PEDRO FRAZÃO Sonho dourado

Na vã desesperança que se espalma Por meu ser sem alento e quase morto, Sem mais remédio à dor da triste alma, Busquei ressuscitar o inerme corpo.

E eis que um vislumbre de esperança acalma Todo o amargor de um vago viver torto: Teu olhar – que me orvalha qual a palma, Teu riso – que é oásis... meu céu-porto!

Como a ave que busca de tardinha Seu ninho colorido de arrebol, Sonho ser só teu – tu somente minha! –

Em um leito florido em girassol, Onde minh’alma à tua em amor se aninha, Os corpos se queimando ao mesmo sol!

GERALDO RAMON PEREIRA Mulher do mato

Sou Mulher do Mato: Puro desacato No ato Se me cortam as asas Ou me interrompem o voo Sou Mulher do Mato: Guavirosa e guavireira Gente-bicho cerradeira Mãe de Lua parideira Filha dos cheiros verdes Desassombrada semente! Farpa de arame não prende Mourões não me silenciam Nem me tiram o pólen Nem o vento engole, Visto eu ser Ventania… Sou Mulher do Mato: – Menina Que o Tempo não desatina…

Caminhos do mundo

Pensar e sonhar são buscas para mudar.

Texto extraído do PDF da edição impressa nº 23.191 do Correio do Estado. Acervo de edições