Correio do Estado

Sexta-feira, 6 de novembro de 2026

Edição nº 23.196

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Aversão à vigilância da atividade policial

Se não existe procedimento padrão seguro dentro das delegacias, que dirá fora delas

Um antigo ditado popular diz que “a ocasião faz o ladrão”, sugerindo que as circunstâncias e as oportunidades favoráveis podem levar uma pessoa a cometer um ato ilícito que em condições normais ela não cometeria. Existe praticamente um consenso de que esse ditado faz todo sentido, embora isso não isente da responsabilidade aqueles que caíram na tentação, ainda mais quando se trata de pessoas que atuam na segurança pública e recebem salário justamente para prender o ladrão.

E ninguém melhor do que as forças de segurança pública para terem conhecimento de que esse ditado faz muito sentido, o que está ficando claro com os recentes escândalos mostrando o suposto envolvimento de policiais no desvio de cargas milionárias de cocaína. Sendo assim, uma das ações prioritárias e fundamentais das instituições públicas deveria ser a adoção de medidas para evitar ao máximo que surgissem as tais das “ocasiões”. Mas, se carregamentos milionários de entorpecentes sumiam de dentro de delegacias, então, está comprovado que faltam protocolos ou procedimentos padrão para registrar as apreensões e acompanhar o armazenamento dessas drogas até que sejam levadas à incineração. Por que não destruí-las imediatamente?

Se não existe procedimento padrão seguro dentro das delegacias, que dirá fora delas, em um estado que é corredor do narcotráfico internacional. Historicamente, em torno de 80% da cocaína apreendida em Mato Grosso é descoberta pela Polícia Rodoviária Federal e a Polícia Federal, embora representem menos de 10% do efetivo policial disponível nas ruas e nas estradas do Estado. Diante disso e em meio aos recentes escândalos, a escassez de apreensões de cocaína pelas forças estaduais deveria ser seriamente analisada pela cúpula da segurança pública estadual.

No entanto, em um Estado explicitamente avesso à vigilância da atividade policial, com o apoio maciço da sociedade, seria ingenuidade esperar que essa cúpula adotasse maior rigor na vigilância, que seria fortemente incrementada com o uso de câmeras corporais em tempo integral por todos os policiais em trabalho. Os números relativos às mortes de civis resultantes dos chamados confrontos com a polícia, que explodiram neste ano e normalmente são aplaudidos por importante parcela da população e as autoridades, são a maior evidência de que não se quer vigiar as ações policiais. Ou seja, existe explícita autorização para matar. Se uma sociedade permite e aplaude a morte sumária, sem julgamento, o resto é resto.

Nessa lógica, então, desviar 100, 200 ou 2 mil quilos de cocaína chega a ser algo irrisório, embora escandalize bem mais que dois tiros à queima-roupa efetuados por um policial contra aqueles que costumam chamar de “peba”. E em 99,9% dos casos esses tiros são disparados contra “pebas” que atuavam como “formiguinha” para os “barões” do tráfico, que recompram a droga que estava na delegacia.

É evidente que, por melhor que seja a vigilância, mentes criminosas sempre vão encontrar uma forma de a driblar. Porém, as evidências apontam que os desvios de cocaína e a ostentação de vida luxuosa por policiais supostamente envolvidos estão longe de ser um caso isolado e momentâneo. Sendo assim, é possível concluir que o roubo de cocaína de dentro das delegacias é resultado de uma sociedade que literalmente é avessa à vigilância da atividade policial.

“Servir o povo de nossa terra, informando-o, indagando dos seus problemas, empenhando-se na sua solução, batendo-se por seus direitos e verdadeiros interesses”

A vingança da natureza promete ser terrível!

Vamos analisar neste estudo um dos episódios climáticos mais intensos das últimas décadas: o El Niño de 2023-2024. Os pesquisadores procuraram responder a uma pergunta importante: os efeitos extremos observados nas florestas tropicais, durante esse evento, foram apenas um episódio excepcional ou representam uma antecipação do clima que poderá se tornar comum nas próximas décadas? Os resultados indicam que a segunda hipótese é a mais provável.

As florestas tropicais, como a Amazônia, as florestas da África Central e as do Sudeste Asiático, desempenham papel fundamental para o equilíbrio climático do planeta. Elas armazenam enormes quantidades de carbono, ajudam a regular as chuvas em enormes regiões e sustentam milhões de pessoas que dependem, direta ou indiretamente, de seus recursos. Quando essas florestas sofrem com secas prolongadas e calor excessivo, sua capacidade de exercer essas funções é reduzida.

O fenômeno El Niño ocorre quando as águas do Oceano Pacífico Equatorial ficam mais quentes do que o normal. Isso altera a circulação atmosférica e modifica os padrões de chuva e temperatura em várias regiões do mundo. Nesse particular, o evento de 2023-2024 foi particularmente severo. Segundo os cientistas, ele gerou uma combinação de calor extremo e falta de chuva que superou o padrão normalmente associado ao fenômeno.

Um dos resultados mais impressionantes foi constatar que aproximadamente 75% das florestas tropicais do planeta enfrentaram, em média, cerca de seis meses de condições anormais de seca e calor simultaneamente durante o período analisado.

Outra conclusão preocupante diz respeito ao calor. Mesmo em cenários relativamente mais otimistas de redução de emissões, os pesquisadores verificaram que temperaturas extremas, semelhantes às de 2023-2024, tendem a ocorrer com muito mais frequência nas regiões tropicais.

O estudo também ressalta um aspecto pouco conhecido pelo público. As florestas tropicais normalmente funcionam como grandes “sumidouros de carbono”, retirando parte do dióxido de carbono da atmosfera. Porém, quando são submetidas a períodos intensos de calor e seca, podem perder parte dessa capacidade.

Os pesquisadores argumentam que o evento de 2023-2024 deve ser interpretado como uma espécie de “janela para o futuro”. O que ocorreu durante aquele El Niño não seria apenas um episódio isolado, mas uma amostra prévia das condições climáticas que poderão se tornar mais frequentes a partir de agora, conforme o planeta continua aquecendo.

Outro ponto importante é que a influência humana aparece claramente nas projeções. Os modelos utilizados indicam que a continuidade das emissões de gases de efeito estufa aumenta muito a probabilidade de ocorrência de eventos extremos. Por outro lado, reduções rápidas e significativas dessas emissões diminuem os riscos futuros. Embora não eliminem completamente os impactos do aquecimento já em curso, podem evitar os cenários mais graves apresentados pelo estudo.

Em termos práticos, os resultados servem como um alerta para governos, empresas e sociedade. A proteção das florestas tropicais deixa de ser apenas uma questão ambiental e passa a ser o fulcro da estratégia climática global. Manter esses ecossistemas saudáveis contribui para pre servar a biodiversidade, garantir recursos hídricos, sustentar populações locais e reduzir a intensidade das mudanças climáticas. Particularmente, o agronegócio, o mais prejudicado pelas mudanças climáticas, seria o mais beneficiado por políticas públicas de redução de emissões.

A principal mensagem do artigo é clara: o El Niño de 2023-2024 mostrou como as florestas tropicais podem reagir diante de condições extremas de calor e seca. Segundo os autores, esse episódio pode representar uma prévia do clima que se tornará cada vez mais frequente ao longo do século. Sem uma redução rápida e consistente das emissões globais de gases de efeito estufa, eventos semelhantes poderão deixar de ser exceções e se transformar em parte do novo padrão climático das regiões tropicais do planeta.

O El Niño atualmente em curso mostra como o problema vai ficar mais grave, mais intenso e provocar prejuízos econômicos e sociais enormes. O problema não se restringe ao impacto sobre a Floresta Amazônica. O regime de chuvas no Cerrado, em grande parte do Sudeste e no Sul do Brasil depende, justamente, do que ocorre na região amazônica. A seca na Amazônia pode se estender por grande parte do Centro-Oeste e de outras regiões do Cerrado, como o Tocantins e o oeste da Bahia, reduzindo fortemente a produtividade e a produção agrícola. Contrariamente, no Sul do Brasil, o problema é o excesso de chuvas.

Um aspecto fundamental: apesar das inúmeras evidências, fatos, números, mapas e gráficos que os cientistas informam cotidianamente, ainda existem pessoas no mundo atual que negam a existência de mudanças climáticas, embora elas estejam sendo diariamente afetadas por elas. O pior dos mundos é quando lideranças políticas, aquelas que poderiam implementar políticas públicas para evitar o desastre futuro, compartilham da visão de negação da ciência, arrastando o mundo para uma catástrofe anunciada.

“O pior dos mundos é quando lideranças

políticas, aquelas

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Correio do Estado, Sexta-feira, 6 de novembro de 2026 — página 3

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Texto extraído do PDF da edição impressa nº 23.196 do Correio do Estado. Acervo de edições