Correio do Estado

Quinta-feira, 5 de novembro de 2026

Edição nº 23.195

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COMBATE AO CÂNCER Mês classificado como Novembro Azul retoma a pauta da saúde masculina e especialistas evidenciam barreiras que alguns homens declaram quando o assunto é a busca pela melhora da saúde, muitas ligadas ao aspecto geracional, ao estigma do medo de demonstrar fraqueza e, em alguns casos, à dificuldade de acesso imposta pela tecnologia 1 QUINTA-FEIRA, 5 DE NOVEMBRO DE 2026 CORREIO B INCLUI CLASSIFICADOS Aponte a câmera do celular para o código ao lado para acessar outras notícias do Correio B no Portal AUTOCUIDADO DELES LEO RIBEIRO No mês voltado mundialmente para o combate ao câncer de próstata, o tipo de neoplasia maligna que vitima um homem a cada 38 minutos no Brasil, conforme dados da Biblioteca Virtual em Saúde (BVS) com base em dados recentes do Instituto Nacional do Câncer (Inca), a campanha enfrenta barreiras históricas e estigmas geracionais que até hoje deixam marcas a serem superadas quando o assunto é o autocuidado deles.

O medo de demonstrar fraqueza e, em alguns casos, até a dificuldade de acesso imposta pelo avanço da tecnologia são alguns aspectos a serem superados. Esses fatores comportamentais refletem diretamente em um atraso do diagnóstico, não somente do câncer de próstata, mas também de outras doenças graves. Especialistas destacam que há uma cultura imposta pelos papéis de gênero que, além de impactar “regras culturais” que subjugam as mulheres, associam o cuidado com a saúde masculina a uma perda de produtividade física e até profissional. Em outras palavras, décadas acumuladas de um pensamento que reserva ao homem o espaço público do trabalho remunerado, bem como o papel de “provedor”, resultaram em uma postura que os deixa mais propenços a doenças.

Nesse cenário, o Inca estima, para o triênio de 2026 a 2028, 77.920 novos casos anuais de câncer de próstata. Vale lembrar que o câncer de próstata é o tipo de neoplasia que representa 30,5% de todos os cânceres diagnosticados em homens brasileiros, excluindo nesse caso as ocorrências do câncer de pele não melanoma. Nunca é tarde para educar indivíduos quanto à compreensão pessoal e aos cuidados necessários com o próprio corpo FOTOS: REPRODUÇÃO Por isso, nunca é tarde para educar esses indivíduos quanto à compreensão pessoal e aos cuidados necessários com o próprio corpo. ENTENDA No corpo humano, como descrito pela BVS, pesando cerca de apenas 20 gramas e semelhante à uma castanha, a próstata trata-se do sistema reprodutor masculino que está localizado abaixo da bexiga.

Sua principal função está associada às vesículas seminais, que, no bom português, indica que é responsável por produzir o esperma. Apresentando-se inicialmente em alguns casos até mesmo sem sintomas perceptíveis, o câncer de próstata começa a manifestar alguns dos seus sinais quando cerca de 95% dos tumores já estão em fase avançada, o que, por sua vez, dificulta um processo curativo. Nesta fase mais avançada, entre sintomas aparecem: dor óssea; dores ao urinar; vontade de urinar com frequência; presença de sangue na urina e/ou no sêmen. Professor de Medicina na UniCesumar de Maringá (PR), Tiago Negrão é urologista e destaca o ponto que influencia a criação masculina, uma vez que muitos homens crescem justamente associando saúde à capacidade ou não de continuar com as atividades laborais e cumprindo com suas respectivas responsabilidades.

“Enquanto conseguem manter a rotina, tendem a minimizar alguns sinais do organismo. O problema é que conseguir manter a rotina não significa necessariamente estar saudável. Quando o homem insiste que ‘não é nada’ sem investigar, pode perder a oportunidade de identificar e tratar uma condição de saúde em uma fase mais favorável”, comenta o profissional. BARREIRAS Diante de um cenário basicamente de epidemia, persistir em ignorar sinais ainda na fase inicial, além de sobrecarregar o sistema de saúde, limita o combate ao câncer de próstata, sendo necessário e indispensável substituir a busca por atendimento em momentos de urgência por um comportamento de acompanhamento preventivo contínuo para que esse quadro seja revertido.

O profissional urologista destaca que entre as principais barreiras que afastam o público masculino dos consultórios estão o medo de acabarem descobrindo doenças graves e a dificuldade de abordar alterações em suas respectivas intimidades. Ou seja, além do receio de diagnósticos como o câncer ou de acabarem necessitando realizar tratamentos cirúrgicos, há um constrangimento observado na média geral no que diz respeito a relatar, por exemplo, sintomas urinários, perda de libido e disfunção erétil, o que faz com que esses homens evitem a avaliação profissional. Para o médico, essa hesitação ganha ainda mais força diante da tendência dessas figuras em priorizar o trabalho e os compromissos familiares, o que mantém a busca por atendimento em segundo plano, pelo menos enquanto o desconforto físico parece tolerável.

“Adiar a consulta não impede o avanço de patologias silenciosas. A investigação precoce de qualquer alteração no organismo é determinante para compreender as causas do problema, acompanhar sua evolução e estabelecer o protocolo terapêutico mais adequado. No caso de neoplasias e outras condições crônicas, a identificação nas fases iniciais amplia as opções de tratamento disponíveis e favorece o prognóstico e a qualidade de vida do paciente”, complementa o urologista Tiago Negrão. Apesar de facilitar a rotina, a digitalização da saúde também aparece como uma “classe extra” de barreira para pessoas idosas, que encontram dificuldade, por exemplo, em lidar com senhas ou agendamentos que, hoje em dia, costumam ser feitos de forma virtual.

Cada vez mais comuns em serviços de saúde, essas confirmações de atendimentos por meio de links, agendamentos de consultas pelo WhatsApp ou até mesmo o acesso ao resultado dos exames não deixam de ser um entrave quando o pessoal da terceira idade busca por cuidados com a saúde. Segundo a geriatra Rafaela Maniçoba, essa questão pode ser superada. Para a médica, não necessariamente a idade é uma dificuldade nesses casos, mas sim a familiaridade com a tecnologia, como evidenciado por meio de uma revisão científica publicada em 2024 na revista BMC Public Health. Ao analisar as barreiras da adoção de novas tecnologias voltadas para a área da saúde por idosos com doenças crônicas, foi identificado que fatores socioeconômicos, individuais, tecnológicos e de apoio social também influenciam nesse processo.

A médica confirma que agendamentos exclusivamente por aplicativos, criação de senhas, códigos de verificação, confirmações por links e acesso digital a exames podem representar barreiras para parte da população idosa, e que cabe ao profissional de saúde melhorar a comunicação com pacientes dessa faixa etária. “A comunicação deve ser clara, respeitosa e adaptada às necessidades individuais. É importante evitar termos técnicos desnecessários. A modernização dos atendimentos deve considerar diferentes níveis de familiaridade com a tecnologia. Disponibilizar canais alternativos para agendamento, facilitar o acesso aos resultados de exames e oferecer suporte para utilização das plataformas são medidas que podem tornar a assistência mais acessível”, cita.

Segundo a geriatra, é importante que aplicativos e sistemas digitais tenham interfaces simples, informações claras e recursos de acessibilidade, mas um cuidado essencial é evitar a infantilização. A pessoa idosa deve ser tratada como “protagonista de sua própria saúde, com respeito à sua história, às suas opiniões e às suas decisões”. Rafaela de Sousa Maniçoba destaca que, conforme especifica a geriatria, o cuidado também exige olhar para aspectos que vão além dos diagnósticos, que passam, por exemplo, pelas características ligadas à mobilidade, cognição, capacidade funcional, contexto familiar e rede de apoio. “Pequenas atitudes, como chamar o paciente pelo nome de sua preferência, verificar se está confortável, explicar os próximos passos e reservar espaço para perguntas, podem contribuir para uma experiência mais segura e respeitosa”, diz.

FIQUE ATENTO Quando deparam-se com a doença e buscam iniciar seus tratamentos, muitas vezes pela rede privada, em busca de gerar menos constrangimento, há novos cenários para esses pacientes oncológicos, já que existem registros de casos em que a assistência médica é negada pelo plano de saúde. Nesse sentido, a negativa é muitas vezes acompanhada de demora em autorizar os respectivos exames, cirurgias e medicamentos. Porém, ainda que os planos de saúde possam estabelecer limites contratuais e estejam sujeitos às regras da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), a recusa de procedimentos necessários ao tratamento oncológico pode ser considerada abusiva, dependendo das circunstâncias, como esclarece o advogado especialista em direito médico e da saúde, Gustavo Clemente.

Conforme o especialista, a prescrição médica por si só não garante a cobertura de qualquer procedimento, porém, é preciso que a operadora observe as diversas obrigações contratuais, legais e regulatórias, principalmente em casos em que o tratamento indicado já integra a cobertura obrigatória. “No câncer de próstata, a negativa costuma ser contestada quando recai sobre exame diagnóstico, cirurgia ou tratamento indicado pelo médico assistente e coberto pelo contrato. São situações típicas de negativa abusiva a recusa de procedimento já previsto no Rol da ANS, a recusa fundada apenas em critério administrativo e a negativa sem explicação por escrito”, indica Clemente. Para além das negativas, justamente o período que leva para receber uma resposta por parte das operadoras também preocupa esses pacientes oncológicos, ainda que as regras da Agência Nacional de Saúde Suplementar estabeleçam prazos máximos de garantia de atendimento.

Conforme as diretrizes da ANS, esses prazos máximos costumam variar de acordo com o procedimento: exames laboratoriais devem ser disponibilizados em até três dias úteis; consultas com especialistas, em até 14 dias úteis; e procedimentos de alta complexidade e internações eletivas, em até 21 dias úteis. Já a Resolução Normativa nº 623/2024 estabelece prazo de até 10 dias úteis para resposta às solicitações de procedimentos de alta complexidade e internações eletivas. A distinção entre prazo de resposta e prazo de realização do atendimento é importante para evitar atrasos indevidos. Em casos de urgência e emergência, o atendimento deve ser imediato, conforme condições legais de cobertura. “O paciente pode solicitar o protocolo de atendimento, registrar reclamação na ANS e, quando necessário, buscar uma decisão judicial urgente para garantir o tratamento, além de discutir eventual indenização por danos morais”, conclui.

Texto extraído do PDF da edição impressa nº 23.195 do Correio do Estado. Acervo de edições

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